Notícias da Escócia
May 17, 2009
Essa semana pode se transformar num marco histórico na vida da Igreja da Escócia e certamente mais um capítulo na história do cristianismo contemporâneo. A partir de quinta-feira inicia-se mais uma Assembléia Geral da Igreja da Escócia. Este é o concílio maior da denominação que reúne-se todo ano para aprovar a escolha do seu novo moderador, legislar e tomar decisões de nível nacional. Representantes de todos os Presbitérios dentro da Escócia e fora dela estarão presentes, além de representações provenientes de outros países, representantes do governo e da Rainha.
O que faz dessa Assembléia um momento histórico é o tema homossexualismo trazido novamente ao plenário de discussões daquele supremo concílio. Dessa vez a Igreja da Escócia se vê diante de uma decisão que pode agradar somente gregos ou somente troianos. Eu não tenho absoluta certeza se vai haver algum acordo ou meio termo que possa conciliar os dois lados. De um lado aqueles que sustentam que um ministro, um pastor de igreja, pode manter relações homossexuais; e de outro, os que são contrários a isso. Para esquentar, ambos os lados têm feito campanhas e procurado agregar apoio (principalmente dos representantes dos presbitérios, que são os que têm poder de voto); além disso, a mídia está encima, um prato cheio, falar de uma igreja de mais de 500 anos que se debate para manter sua identidade no mundo das idéias politicamente corretas, no mundo da tolerância e da inclusão absoluta. Qualquer decisão que a Assembléia Geral tomar no próximo sábado, algo de novo poderá acontecer na metade de cima do Reino Unido. A Igreja pode dividir ou poderá ser tida pelo mundo como retrógrada e obscura. É possível também que um pequeno grupo saia sem abalar tanto as estruturas e afetar a vida de pessoas, congregações e igrejas. Deus sabe o que vai acontecer e a vontade dele será feita.
É bom que se diga também que esta controvérsia não é necessariamente entre cristãos liberais e ortodoxos, pois nem todo liberal é a favor da prática do homossexualismo por parte dos membros e liderança da igreja. No entanto, esta não deixa de ser uma grande oportunidade que o Senhor nos apresenta para que haja uma definição do que é igreja e do que está em jogo o ser a igreja de Jesus Cristo. Nossa oração é que aqueles que são fiéis ao Senhor e sua Palavra e que estarão naquele plenário, representando nao apenas seus presbitérios e congregações, mas o povo de Deus espalhado em todo o mundo, possam estar sensíveis à oportunidade de reformar, de fato, uma Igreja que tanto serviu a Deus e às nações no passado.
Notícias do Campo
February 2, 2009
O trabalho na Igreja St. Columba está caminhando bem até aqui, graças a Deus. Nossa preocupação era a de não se adaptar numa nova cidade, cuja cultura, sotaque e tradição é bem diferente de Dundee, onde moramos por 15 meses. Ainda mais agora que perdemos o vínculo oficial no Brasil. Mas acredito que com o passar do tempo vamos nos sentindo cada vez mais em casa. Confio também que o Senhor que nos trouxe para este lugar jamais nos desamparará.
A cidade de Paisley onde moramos e trabalhamos é uma pequena cidade com um histórico de violência muito grande. Hoje não é mais assim, mas a fama sempre fica. É uma cidade que tem muito comércio, muitas escolas, colleges e uma universidade, mas luta contra a decadência principalmente diante da crise atual. É uma cidade em que predomina idosos, aposentados, muita pobreza e por isso a qualidade dos meios de transportes, trânsito e manutenção de prédios e ruas não são muito boas. Não estivesse a cidade de Glasgow, a maior da Escócia, encostada em Paisley, acredito que a situação estaria pior.
No bairro em que se encontra a igreja há muitos aposentados, idosos que moram sozinhos em casa do governo, uma escola secundária e duas primárias. Apesar de pobre, é um bairro bem cuidado e limpo. Tenho tido muito contato e oportunidade de encontrar pessoas que não pertencem à igreja. Tanto nas escolas, como no azilo e quando há um funeral buscam o ministro da Igreja Presbiteriana. A única protestante do bairro. Por isso, as oportunidades de pregar a Palavra aqui são muitas. E estamos aqui exatamente para isso, pregar a Palavra de Deus. Não houve outra motivação que nos fizesse sair do nosso país, deixar família, empregos, cultura, casa, a não ser a de servir ao Senhor como pastor dessas milhares de pessoas que nos foram confiadas. Peço que ore por nós e por essas pessoas.
O Samuel foi aceito na Universidade e vai fazer Teologia com especialização em missões transculturais no ICC (International Christian College) que fica em Glasgow e tem convênio com a Universidade de Aberdeen. Graças a Deus esta porta foi aberta, num lugar em que predomina o liberalismo teológico, o Samuel encontrou um curso de alto nível acadêmico e realmente cristão. Creio que outro curso reconhecidamente cristão é o Highland Theological que tem convênio com o Reformed dos Estados Unidos. Além disso trabalha como voluntário em instituições cristãs que ajudam pessoas carentes, moradores de rua e crianças de lares problemáticos em Glasgow. Trabalha também um dia por semana com uma intituição cristã em uma escola secundária também em Glasgow.
Alguns projetos foram aprovados na Session (conselho) da Igreja: (1) Criação de uma reunião de oração uma vez por mês; (2) Cultos em conjunto com a igreja em Glenburn e Lylesland, de bairros vizinhos cujos pastores pregam a Bíblia; (3) Culto espeical no dia das mães em Março, dirigido pelos jovens; (4) Semana de oração, na semana que antecede a páscoa em Abril. Atividades tão comuns nas igrejas brasileiras, mas aqui sempre raras. Por isso nossa alegria em compartilhá-las.
Ore para que esses trabalhos sejam uma bênção na vida das pessoas e assim possamos trazer novas idéias no futuro.
No mais estamos bem, e ainda nos adaptando.
Abraços…
O Presbiterianismo Escocês
October 26, 2008
Quando eu estava no Brasil eu procurava sempre defender a chamada “identidade presbiteriana”. Mas confesso que, vivendo agora na Escócia, essa expressão não tem mais muito sentido para mim. Não estou dizendo que me arrependo de defender a identidade da minha igreja, pelo contrário, entendo que nossas origens devem de fato ser preservadas e mantidas. Mas o problema é justamente a respeito dessas origens. Quando procurava manter o nome e a história por tras da minha denominação, era por zelo e contra a enxurrada de novidades que assaltavam a igreja e queriam mudar o rumo das coisas. O problema é que eu não sabia que identidade era essa. Eu pensava que estava sendo fiel ao sistema eclesiástico dos dois João (Calvino e Knox). Mas quando cheguei aqui e comecei a ver e estudar sobre a igreja knoxiana, ao ver como ela fora concebida originalmente (século XVI), cheguei à conclusão de que o presbiterianismo que saiu da Escócia e foi para o Brasil sofreu algumas alterações no meio do caminho de forma que, quando eu falava de manter identidade era por ignorância e desconhecimento da história.
Exemplo dessa mutação é quanto ao diaconato. O diácono na Igreja da Escócia vem seguindo o mesmo princípio ensinado por João Calvino e Knox ao longo dos séculos, na verdade com pequenas alterações. Diácono aqui é um ministro. O pastor ou reverendo, recebe aqui o ofício de ministro da Palavra e dos sacramentos, enquanto que o diácono o de ministro do socorro, ação social e assistência. Para ser diácono na Igreja de John Knox é preciso estudar teologia e participar do treinamento da denominação, juntamente com os candidatos a pastor. Depois de devidamente formado e treinado, o diácono pode ser enviado para qualquer canto do país ou fora dele. Conheci uma diaconisa que serviu na India e agora está aposentada. Isso mesmo, o diácono é empregado pela Igreja da Escócia da mesma forma como o pastor. O trabalho diaconal envolve também hospitais, azilos, casas de recuperação, escolas, etc. O diácono não fica, necessariamente, na igreja em que é membro. Ele pode ser de grande ajuda nas igrejas em que há muitas pessoas para serem visitadas entre membros e paroquianos. O que conheço do presbiterianismo brasileiro mostra um sistema bastante diferente do original em relação à diaconia.
Hoje eu sei que há muito o que aprender com a igreja brasileira, mas também existe muito o que se resgatar da Igreja mãe, se de fato queremos manter a identidade. Não se trata de manter a identidade simplesmente por tradição. O sistema presbiteriano legítimo tem, em termos de diaconia, prestado um grande serviço no reino de Deus em todos os lugares em que hajam diáconos comprometidos de fato com Cristo e com as Escrituras. Alguém que faça lembrar de dois grandes servidores, Felipe e Estevão, conforme mostra o Livro dos Atos dos Apóstolos, cuidavam do povo e pregavam o Evangelho; pessoas cheias de fé e do Espírito Santo.
Olhando para Frente
October 19, 2008
Continuamos o trabalho pastoral e missionário aqui na Escócia com a graça de Deus. Estamos seguindo em frente, com os olhos fixos em Jesus, o autor e consumador da fé. Somente no Senhor nós esperamos.
Tivemos a alegria de almoçar com um pastor cuja igreja e paróquia é muito próxima da minha. Até se misturam em algum ponto. O nome dele é Graham Nash, jovem pastor, fez teologia na Universidade de Glasgow e em determinado momento de sua vida foi marcado positivamente pelo evangelho da graça do nosso Senhor Jesus Cristo. Durante nossa conversa ele me apresentou um material escrito que preparou como plano para o crescimento da sua igreja, a Glenburn Parish Church. O tema do plano é, “Uma visão para o futuro”. Quero falar um pouco sobre o que eu li, principalmente na parte inicial, para mostrar a mente e coração de um pastor escocês que mantém-se fiel a Deus e sua Palavra, apesar de ter recebido tantas outras influências. Engana-se quem pensa que tudo está perdido na Escócia!
Nash começa dizendo que não existe nada de errado em desejar o crescimento numérico da igreja, o problema é que esse desejo pode transformar-se numa tentação. Grande parte do que se fala sobre “estratégias de crescimento de igreja” soa como métodos de ampliação de negócios e plano de otimização comercial no mundo secular. Nash acertadamente coloca que a igreja deve pensar em termos de “visão para o futuro”, muito mais do que concentrar-se na idéia de “crescimento numérico”.
A primeira pergunta feita pelo pastor é, “por que queremos crescer?” Ele responde de uma forma bem objetiva e não menos interessante. O lado positivo do “querer crescer numericamente” pode ser visto, por exemplo, quando os crentes querem dividir o amor de Deus com as pessoas de fora; ou quando desejam espalhar o evangelho de Jesus e serem usadas para a conversão de outras; além disso, os cristãos querem ver sua igreja crescer para que mais pessoas adorem a Deus e ouçam a Palavra. Todos esses são motivos salutares que levam as pessoas a desejarem o crescimento da igreja. Mas há outros motivos não tão salutares assim. Concordo com Nash quando ele diz que são motivos meramente humanos, como por exemplo:
· Observam a idade das pessoas da congregação e temem que um dia desaparecerão. Medo tão comum aqui na Escócia, mesmo vindo de cristãos sinceros;
· A manutenção do prédio onde funciona a igreja é grande, assim, mais pessoas, mais dinheiro.
· As pessoas (e alguns ministros) gostam de ser vistos como igreja que cresce em número.
Nash acerta ao dizer que crescimento da Igreja, conforme se lê em Efésios 4, diz respeito mais à maturidade espiritual do que a números. O desejo de Deus, declara ele acertadamente, é que seu povo cresça em fé, no conhecimento do Senhor Jesus Cristo e no amor entre o povo de Deus, tornando-se mais parecido com ele na vida diária. Não existe nada errado no crescimento numérico, mas nossa prioridade, completa ele, deve ser voltada para o crescimento espiritual.
De fato, o propósito é glorificar a Deus, Efésios 1.12. A igreja que busca o crescimento para si própria, ainda que cresça realmente, pode não contar com a presença abençoadora de Deus e por isso falha. Mas a igreja comprometida em glorificar a Deus em tudo o que faz crescerá porque nela Deus vai trabalhar para cumprir seus abençoados propósitos.
Para isso, diz Nash, a igreja precisa ser centralizada na Palavra. E este será o tema do próximo post.
Os Garotos da Brigada
September 26, 2008
Para grande parte da populacao da Europa em geral e da Escocia em particular, igreja eh simbolo de retrocesso, opressao, readicalismo e ate imperialismo. Homens e mulheres entre 17 e 50 anos de idade (a grosso modo falando) estao entre os que pensam assim. Essa eh uma das razoes porque eh dificil encontrar jovens e adultos nos cultos em quase todas as igrejas. Existe na verdade um pequeno grupo de criancas e um numero grande e crescente da terceira e quarta idade. Como trazer esse grupao de volta? Esse eh um dos temas de maior preocupacao na Igreja da Escocia e em outras denominacoes. O que vai ser da igreja nos proximos 20 anos, quando a idade avancada estiver indo dessa para melhor? (ou pior!). Nao existe hoje, humanamente falando, uma geracao para ocupar os bancos da igreja no lugar deles. O que acontece entao? As igrejas vao enfraquecendo, vao ficando pequenas e sem poder financeiro. Unem-se a outras igrejas, vendem seus predios para donos de Bingo, restaurantes, boites, e outras coisas… Alguns pastores pastoreiam 2, 3, 4 ou ate 5 igrejas ao mesmo tempo.
A Igreja St Columba’s aqui em Paisley nao foge desse quadro. O conselho formado por 29 presbiteros tem os dois mais jovens na idade de 60 e 63 anos, respectivamente. Eh um conselho aberto a mudancas, mas hoje a igreja so tem uma reuniao semanal que eh o culto de Domingo de manha. Nao existe reuniao de oracao, estudo biblico, escola dominical para jovens e adultos, nao existem as famosas sociedades internas, a nao ser a das Senhoras, aqui eh chamada de Women’s Guild.
O que existe de positivo aqui na nossa igreja e potencialmente um grande desafio e oportunidade, sao algumas organizacoes que nao sao da igreja, sao seculares, mas funciona nas salas da igreja durante os dias da semana.
Uma dessas organizacoes eh o Boys Brigade. Eh uma instituicao que nasceu no final do seculo 19 e por muitas decadas foi uma entidade interna dentro da igreja da Escocia, mas infelismente o liberalismo e a secularizacao da igreja transformaram essas sociedades internas em instituicao independente perto de 1950. Eh uma organizacao hierarquizada como os Escoteiros, com seus soldados, sargentos e capitaes. Estao espalhados em todo o Reino Unido e sao divididos em distritos. Nada tem a ver com a igreja, nao ha qualquer ensino cristao e seus lideres nada tem a ver com o cristianismo. Mas na St Columba’s eh diferente. O capitao eh o Mr.Walter Smith, presbitero, homem de Deus. Ele me deu boas-vindas em nome dos BB. A igreja reune cerca de 30 garotos toda Sexta-feira de noite e uma sala de estudo biblico foi aberta para os meninos de 11 a 17 anos. Sexta passada haviam 18 garotos nessa sala. A maioria nao tem qualquer vinculo com igreja ou religiao.
Esta ai uma grande oportunidade. Comecamos a estudar a Biblia com eles e temos muitas ideias. O objetivo eh termos uma geracao de pessoas tementes a Deus e que possam preencher esse espaco vago na igreja. Que possam ser mais do que garotos da brigada, que sejam transformados em Soldados de Jesus.
Ore por isso.
