O Presbiterianismo Escocês

October 26, 2008

Quando eu estava no Brasil eu procurava sempre defender a chamada “identidade presbiteriana”. Mas confesso que, vivendo agora na Escócia, essa expressão não tem mais muito sentido para mim. Não estou dizendo que me arrependo de defender a identidade da minha igreja, pelo contrário, entendo que nossas origens devem de fato ser preservadas e mantidas. Mas o problema é justamente a respeito dessas origens. Quando procurava manter o nome e a história por tras da minha denominação, era por zelo e contra a enxurrada de novidades que assaltavam a igreja e queriam mudar o rumo das coisas. O problema é que eu não sabia que identidade era essa. Eu pensava que estava sendo fiel ao sistema eclesiástico dos dois João (Calvino e Knox). Mas quando cheguei aqui e comecei a ver e estudar sobre a igreja knoxiana, ao ver como ela fora concebida originalmente (século XVI), cheguei à conclusão de que o presbiterianismo que saiu da Escócia e foi para o Brasil sofreu algumas alterações no meio do caminho de forma que, quando eu falava de manter identidade era por ignorância e desconhecimento da história.

        Exemplo dessa mutação é quanto ao diaconato. O diácono na Igreja da Escócia vem seguindo o mesmo princípio ensinado por João Calvino e Knox ao longo dos séculos, na verdade com pequenas alterações. Diácono aqui é um ministro. O pastor ou reverendo, recebe aqui o ofício de ministro da Palavra e dos sacramentos, enquanto que o diácono o de ministro do socorro, ação social e assistência. Para ser diácono na Igreja de John Knox é preciso estudar teologia e participar do treinamento da denominação, juntamente com os candidatos a pastor. Depois de devidamente formado e treinado, o diácono pode ser enviado para qualquer canto do país ou fora dele. Conheci uma diaconisa que serviu na India e agora está aposentada. Isso mesmo, o diácono é empregado pela Igreja da Escócia da mesma forma como o pastor. O trabalho diaconal envolve também hospitais, azilos, casas de recuperação, escolas, etc. O diácono não fica, necessariamente, na igreja em que é membro. Ele pode ser de grande ajuda nas igrejas em que há muitas pessoas para serem visitadas entre membros e paroquianos. O que conheço do presbiterianismo brasileiro mostra um sistema bastante diferente do original em relação à diaconia.

        Hoje eu sei que há muito o que aprender com a igreja brasileira, mas também existe muito o que se resgatar da Igreja mãe, se de fato queremos manter a identidade. Não se trata de manter a identidade simplesmente por tradição. O sistema presbiteriano legítimo tem, em termos de diaconia, prestado um grande serviço no reino de Deus em todos os lugares em que hajam diáconos comprometidos de fato com Cristo e com as Escrituras. Alguém que faça lembrar de dois grandes servidores, Felipe e Estevão, conforme mostra o Livro dos Atos dos Apóstolos, cuidavam do povo e pregavam o Evangelho; pessoas cheias de fé e do Espírito Santo.

Conhecer Graham Nash representa uma boa notícia, uma bênção de Deus aqui. Digo isso não somente porque nossas igrejas estão bem próximas, mas principalmente por causa da sua visão reformada e centralizada em Cristo e em sua Palavra que ele tem. Este jovem pastor não se mostra muito preocupado com as estatísticas pessimistas sobre o declínio numérico dos membros das Igrejas aqui na Escócia. Ele faz questão de lembrar que o Senhor sempre tem seus eleitos em todos os lugares. Dessa forma, a presença de um servo de Deus com esta visão muito nos anima. Nossos planos são de estreitar laços entre as duas igrejas e mantermos intercâmbios; trabalharmos juntos nas escolas e instituições seculares que temos tido acesso.

Continuando a analisar a proposta que Nash faz ao seu conselho, visando o futuro da igreja, diz o pastor que a igreja centralizada na Bíblia é igreja que ora. De acordo com Efésios 6.17-18, Nash declara que Deus dá à sua igreja duas armas, a Palavra e a oração. Assim como a árvore que é plantada junto aos ribeiros de águas do Salmo 1, diz ele, “a chave do crescimento está no local de onde tiramos a nutrição”. E então ele pergunta, “onde estão nossas raízes?” A resposta vem novamente do Salmo 1: assim como o homem justo busca seu alimento no Senhor, meditando em sua Palavra de dia e de noite, somente cresceremos como igreja se nossas raízes tiverem sido plantadas na Palavra de Deus. Ou seja, a igreja só crescerá, num crescimento que agrada a Deus, se estiver estabelecida sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, com o Senhor Jesus, sendo ele próprio a pedra angular (Efésios 2.20). E se o Senhor não edificar a casa, conforme o salmo 127, em vão trabalham os que a edificam. Por isso, diz Nash, nosso foco deve ser principalmente voltado ao estudo e meditação da Palavra de Deus e na vida de oração, muito mais do que fazendo coisas, atividades sem parar, como se a igreja dependesse totalmente do nosso esforço. Nossa oração não é pedir para Deus o que queremos fazer, mas sim rogar a ele sua direção e que sua vontade seja feita.

Antes de sair do Brasil um pastor me disse, “a noite chegou na Escócia, não há mais luz!” Infelizmente muitos pensam assim por desconhecer a história dos grandes feitos de Deus e por falta de visão missionária e pastoral. Para nós, a presença de Graham Nash e outros aqui na Escócia mostra claramente que Deus tem seu povo aqui e um plano de redenção neste canto do mundo. Somente a ELE, toda a glória eternamente.

A Luta pelo Reino

August 28, 2008

quase mil anos de história.
Torre da Steeple Church em Dundee: quase mil anos de história.

Os soldados ingleses liderados por Oliver Cromwell subiram na torre da Steeple Church, igreja Presbiteriana cravada no centro da cidade de Dundee na região central da Escócia em 1651, com o objetivo de reconquistar aquele país para, juntamente com a Inglaterra, formarem o que conhecemos por Reino Unido. Cromwell e seus homens subiram no ponto mais alto da torre e de lá atiravam contra a cidade até conquistarem seus objetivos.

Hoje, 357 anos depois, a torre continua lá e é a mais larga do Reino Unido. Construída no século XII, a torre foi inicialmente chamada de St.Mary Tower e o prédio abrigava a Igreja Católica medieval. Na época da Reforma Protestante do século XVI a igreja foi parcialmente destruída, transformando-se em prisão para “adúlteros e fornicadores” de acordo com o que está escrito na torre hoje. Depois disso, a Reforma de John Knox se instalou na Escócia e aquela igreja foi restaurada e transformada na Old Steeple, Igreja Presbiteriana.  A história está preservada dentro dela. É possivel ainda hoje ver um buraco de bala de canhão feito há cerca de 500 anos.

A Presbiteriana está lá até hoje. Neste período de verão, a torre está sendo aberta para a visitação turística duas vezes por semana. A igreja participa desse evento, abrindo suas portas para receber as pessoas e oferecendo-lhes gratuitamente café, chá, suco, bolos e uma variedade de livros, livretos, folhetos, informações sobre a igreja e a história dela. Surge então a oportunidade para um bate papo e a chance de falar de Jesus com os turistas. Eu liderei um grupo por 4 dias e posso testemunhar como foi bom conhecer pessoas de todos os cantos da terra, não somente escoceses. Houve poucas oportunidades de evangelizar diretamente, mas a maioria saía com alguma literatura cristã.

Há quase 4 séculos houve morte e violência para conquistar o reino humano neste lugar. Hoje nossa batalha tem sido conquistar pessoas para o Reino de Deus, não de uma maneira violenta e constrangedora. Só uma morte foi suficiente para fazermos isso, a de Jesus Cristo, aquele que venceu a morte. Sábado termina a batalha. Não conseguimos contabilizar a conquista, mas o Senhor Deus sabe o que cada pessoa levou para sua casa e país. Os resultados são DELE. A ele pois toda a glória eternamente.