Quando estava para deixar o Brasil rumo à Escócia, eu me imaginava no novo país, como que numa trincheira, em plena guerra contra os chamados liberais, lançando no campo deles granadas e dando tiros e, dessa forma, considerando que eu sou o lado do bem, um dia haveria de prevalecer e reconquistar a Escócia para a verdadeira Reforma. Pensava eu que meu campo de batalha seria tanto no mundo dos debates teológicos como no dos concílios: argumentando e contra-argumentando, fazendo alianças, organizando reuniões secretas e me colocando como guardião e fiscal da fé reformada e pronto para denunciar a todos, quem quer que fossem.

Ao chegar na Escócia percebi que a guerra não é tão declarada assim – costumava ser no passado, o que causou muito escândalo, divisão e desânimo. Fui recebido no Presbitério de Dundee com muita honra e consideração; como membro correspondente, ou seja, tendo minha ordenação e ministério de 15 anos reconhecidos por este concílio. Verifiquei que a Igreja da Escócia, como denominação, mantém-se fiel em seus documentos à Confissão de Fé de Westminster e à Bíblia como única regra de fé e prática. Na prática, esses símbolos de fé não são integralmente seguidos pela maioria, mas eles estão lá, por enquanto, culpando de certa forma aqueles que não os subscrevem. Temos aí então um motivo e força legal para declarar guerra aos ímpios de dentro da igreja. Mas quem são eles? Onde eles estão? Será que existe apenas uma forma de combatê-los, ou seja, movendo tribunais, batendo boca ou formando grupelhos reacionários?

No Brasil, eu entendia os liberais como sendo aqueles que professam a fé cristã de maneira diferente de nós evangélicos, reformados, conservadores e ortodoxos. Parecia ser fácil para mim separar ovelhas de bodes, joio de trigo (que a propósito nunca fora minha função). Ao chegar na Igreja da Escócia percebi que as coisas não são tão “preto-no-branco” como eu imaginava. Existe uma guerra? sim. O liberalismo é um mal para a Igreja? Sim, definitivamente, pois se o texto bíblico tem autoridade igual a qualquer outro texto, a igreja que assim aprende fica destinada ao raquitismo espiritual. Como saber a vontade de Deus se a própria Palavra revelada por ele é negligenciada? O problema é que o inimigo é sutil e muito bem camuflado. Sua postura amiga, ética e tolerante para com linhas teológicas diferentes e até divergente são claras como cristal. Até mesmo os que, como eu, defendem a autoridade absoluta das Escrituras, os aqui chamados “evangélicos”, da mesma forma acabam tendo que ser sutis. Uma das razões para serem assim é porque no passado, os chamados reformados, calvinistas, ortodoxos e evangélicos perderam terreno e força para influenciar a igreja. Eles apresentavam uma conduta e comportamento um tanto intolerante, debatedor, politiqueiro e ao mesmo tempo sem muita ética; hoje os que querem ver a igreja espiritualmente sadia e de fato reformada não querem ser comparados com o velho evangelicalismo de direita (como eles chamam aqui), pois associação com eles enfraquece qualquer ação.

Vejo agora na Escócia uma batalha muito mais difícil e menos óbvia. Difícil saber quem é quem e, mesmo sabendo, a lida com eles há que ser diferenciada. Por exemplo, há igrejas que, a despeito de parecer de cor liberal, promovem trabalhos que envolvem tanto distribuição de Bíblias como o ensino da mesma; Escolas Dominicais de linha aparentemente não muito ortodoxa adotam material da Scripture Union, entidade reconhecidamente cristã e de fé bíblica e ortodoxa; conheci pastores e cadidatos a pastores que apresentam certas deficiências teológicas, fruto da formação acadêmica que tiveram, essa sim, totalmente liberal, mas que no geral apresentam fé evangélica quando oram, pregam e quando cuidam, com dedicação, do rebanho. Como peneirar isso? Como lidar com isso? Creio que somente com a sabedoria que vem de Deus.

As vezes páro e questiono se a postura de tentar purificar a igreja com documentos, denúncias, partidos e facção constrói de fato uma igreja saudável aos olhos do Senhor. O combate aqui é feito de forma um tanto diferente pelos não-liberais. O campo de batalha é na igreja, no púlpito, na visita pastoral, no andar junto, no relacionamento entre pastor e ovelha, no envolvimento com missões, evangelização e na área social (por que não?). E eu acredito nisso, no trabalho da igreja local. No pregar a Palavra, na assistência pastoral e na ação. Quando se ouve dizer no Brasil que a Igreja na Escócia está acabando, fechando e em franco declínio, é bom que se saiba que as igrejas daqui que são fiéis à Palavra de Deus não fazem parte deste quadro. O que as igrejas precisam, aqui e no Brasil, são de líderes que de fato atendam e apascentam o rebanho dentro da autoridade da Palavra e submissos a ela. Os que agem diferente, independente em que exército servem ou em que país estejam, Deus mesmo é quem lhes manda o seu juízo.

Fico pensando como a igreja no Brasil é privilegiada. Sempre com jovens, pessoas de todas as idades e membros que amam a Palavra e têm sede por ela. Hoje entendo que a solução é a mesma também para o Brasil. Igreja local trabalhando, ministros pastoreando seu rebanho com dedicação e empenho.

Quem são os inimigos? Não sei exatamente, mas o que cabe a mim é ter cuidado de mim mesmo e da doutrina. O Senhor faz o resto.

“A sabedoria , porém, lá do alto é, primeiramente pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial sem fingimentos. Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz”. (Tiago 3.17-18)