Thank you, Steeple Church
Thank you, Steeple Church

Hoje termina uma fase do nosso ministério e missão aqui na Escócia. Foram 15 meses de familiarização e reconhecimento da cultura britânica, especificamente da escocesa. Foi um período de aprendizado da vida e história da Igreja Presbiteriana nesse país. Nesse período tive a oportunidade de participar de toda a vida da Igreja local, além de cursos, conferências e visitas a outras igrejas e entidades cristãs. Foi uma fase difícil de atravessar, houve crises, problemas, mas houve muitas vitórias também. Aprendemos muito e, com ajuda do Senhor, consegui ultrapassar as próprias limitações como por exemplo idioma e adaptação.

Eu e minha família fomos muito abençoados aqui em Dundee. A principal bênção foi ver o amor, cuidado e suporte da Igreja. Ganhamos muitos amigos e uma família – engana-se quem pensa que esse é um povo frio. A despedida hoje foi emocionante. O Samuel falou no Children’s Talk (mensagem durante o culto para as crianças) e o pastor da Igreja e meu supervisor nesses 15 meses, Rev David M.Clark, falou sobre nossa vinda e vida na Escócia. Depois eu falei, agradecendo a ele e à Igreja. Fomos convidados para almoçar com nosso grupo de apoio: Alex Rodger, Rosalind Alexander e Gill Clark, na casa da Rosalind. Chegamos em casa às 5 horas da tarde.

Agora começa outro desafio. Vamos deixar a costa leste da Escócia. Amanhã estamos de mudança para o oeste, na cidade de Paisley, a 10 milhas de Glasgow. Fui eleito na Igreja St Columba’s Foxbar. É uma igreja composta por cerca de 230 membros mais 70 aderentes, cuja paróquia tem cerca de 7.500 pessoas. É uma região de muitos contrastes sociais com casas do governo, casas particulares, azilos, escolas, College, centros comunitários, bibliotecas, delegacia, e outras entidades. Nessa paróquia não existe outra igreja a não ser a Presbiteriana e uma católica. Há, portanto, muito para ser feito.

Damos graças a Deus pela experiência que passamos na Igreja Steeple. O Senhor foi sempre fiel, mesmo sem sermos merecedores. E esperamos corresponder ao chamado DELE para esta nação que precisa de pastores dedicados ao seu reino. Ore por nós.

A Luta pelo Reino

August 28, 2008

quase mil anos de história.
Torre da Steeple Church em Dundee: quase mil anos de história.

Os soldados ingleses liderados por Oliver Cromwell subiram na torre da Steeple Church, igreja Presbiteriana cravada no centro da cidade de Dundee na região central da Escócia em 1651, com o objetivo de reconquistar aquele país para, juntamente com a Inglaterra, formarem o que conhecemos por Reino Unido. Cromwell e seus homens subiram no ponto mais alto da torre e de lá atiravam contra a cidade até conquistarem seus objetivos.

Hoje, 357 anos depois, a torre continua lá e é a mais larga do Reino Unido. Construída no século XII, a torre foi inicialmente chamada de St.Mary Tower e o prédio abrigava a Igreja Católica medieval. Na época da Reforma Protestante do século XVI a igreja foi parcialmente destruída, transformando-se em prisão para “adúlteros e fornicadores” de acordo com o que está escrito na torre hoje. Depois disso, a Reforma de John Knox se instalou na Escócia e aquela igreja foi restaurada e transformada na Old Steeple, Igreja Presbiteriana.  A história está preservada dentro dela. É possivel ainda hoje ver um buraco de bala de canhão feito há cerca de 500 anos.

A Presbiteriana está lá até hoje. Neste período de verão, a torre está sendo aberta para a visitação turística duas vezes por semana. A igreja participa desse evento, abrindo suas portas para receber as pessoas e oferecendo-lhes gratuitamente café, chá, suco, bolos e uma variedade de livros, livretos, folhetos, informações sobre a igreja e a história dela. Surge então a oportunidade para um bate papo e a chance de falar de Jesus com os turistas. Eu liderei um grupo por 4 dias e posso testemunhar como foi bom conhecer pessoas de todos os cantos da terra, não somente escoceses. Houve poucas oportunidades de evangelizar diretamente, mas a maioria saía com alguma literatura cristã.

Há quase 4 séculos houve morte e violência para conquistar o reino humano neste lugar. Hoje nossa batalha tem sido conquistar pessoas para o Reino de Deus, não de uma maneira violenta e constrangedora. Só uma morte foi suficiente para fazermos isso, a de Jesus Cristo, aquele que venceu a morte. Sábado termina a batalha. Não conseguimos contabilizar a conquista, mas o Senhor Deus sabe o que cada pessoa levou para sua casa e país. Os resultados são DELE. A ele pois toda a glória eternamente.

            Eu cresci acreditando que Paróquia é uma palavra relacionada à Igreja Católica Romana. Quando fui para o seminário descobri que era um sistema tanto da igreja católica como da protestante, principalmente na Europa desde o movimento da Reforma do século XVI no caso dos protestantes. Hoje, convivendo e trabalhando numa Igreja antiga como a Igreja da Escócia, estou convencido de que o sistema paroquial pode ser uma interessante ferramenta para a igreja no sentido de alcançar as pessoas de fora.

            A igreja da Escócia estabeleceu uma igreja em cada vilarejo e cidade em todo o país. Onde quer que haja um amontoado de gente morando, no campo ou no centro urbano, existe um trabalho presbiteriano. E assim é até hoje. Cada uma dessas igrejas locais é responsável pela região em que está plantada. A igreja é, de certa forma, responsável pela vida espiritual das famílias que estão dentro daquela região. Essa região ao redor de cada igreja local é chamada de paróquia.

            As famílias que moram numa paróquia não são necessariamente membros da Igreja; não são necessariamente cristãos, mas mesmo assim a Igreja tem responsabilidade sobre essas vidas. Tanto casas como escolas, hospitais, azilos, comércio, empresas e até times de futebol ou qualquer outro esporte que estiverem dentro de uma paróquia são alvos de oração, visitação, assistência, enfim, todo tipo de contato que possa ser feito entre igreja e comunidade. Normalmente o ministro atua como um capelão dessas entidades, organizações e famílias. Dependendo da atuação da Igreja e de seu pastor, ele é chamado para funerais, casamentos, batismos, inaugurações, abertura e encerramento de ano letivo, participações em eventos escolares e assim por diante.

            É aí que eu vejo a oportunidade que a Igreja tem de testemunhar o evangelho. Principalmente numa cultura como a da Escócia que não aceita mais a pregação da Palavra na base da abordagem pessoal; uma cultura que não aceita pregadores de rua, distribuição de folhetos, cultos ao ar livre e tocadores de corinhos na praça. Religião para alguns escoceses é algo pessoal e por isso a mensagem deve ser pregada sutilmente, procurando despertar o interesse das pessoas. Mas apesar de não aceitarem bem o evangelismo pessoal, o sistema paroquial parece que está gravado na formação cultural deste povo. De alguma forma eles entendem que estão debaixo da jurisdição de uma Igreja, seja ela a Presbiteriana, Anglicana ou Católica e isso é mais forte nas pequenas towns e vilarejos ao redor do Reino Unido. Ser parte de uma paróquia é algo presente, portanto, na mente britânica. Havendo um caminho aberto as pessoas acabam procurando a igreja ou o pastor quando precisam e é nessa hora que surge a oportunidade. As palavras proferidas num funeral, casamento, batismo e outros eventos podem encontrar ouvidos e corações férteis de acordo com o soberano propósito de Deus; igrejas que estrategicamente dispõem literatura evangelística, acessível e que cultivem um excelente ambiente de boas vindas, estão fazendo excelente uso das oportunidades.

            Mesmo igrejas de grandes centros em que o pastor tem visão e preocupação evangelísticas têm feito com criatividade o trabalho de alcançar as pessoas e a cidade. Trabalhando assim a igreja atua como sal da terra e luz do mundo. É uma pena que muitos líderes não tenham essa visão, talves por causa da teologia liberal que seguem, ou por terem outros objetivos e ambições; o fato é que, com isso, a missão de fazer discípulos é deixada de lado.

            Creio que no Brasil não seja necessária uma adoção oficial do sistema paroquial por parte das igrejas. Contudo, seria importante uma visão e ação nesse sentido. É verdade que muitas igrejas já estão atuando assim, envolvendo-se na comunidade e sendo bênçãos onde estão inseridas, cujos ministros, por exemplo, amam o trabalho local e não tenham tempo a perder com coisas irrelevantes. Líderes que aproveitam as oportunidades, priorizam atividades que levem a igreja a desejar olhar para fora das quatro paredes e preocupar-se com o fazer discípulos de Mateus 28.19. A igreja brasileira tem um potencial muito grande com jovens, adolescentes, jovens adultos, preocupação com o estudo da Palavra e em louvar ao Senhor. As igrejas e presbitérios deveriam elaborar planos para que oferecessem aos seus ministros condições financeiras dignas, ainda que básicas, e assim exigir deles tempo integral no trabalho pastoral e envolvimento com as suas “paróquias”.

            Tenho procurado falar um pouco sobre nossa experiência na Escócia no blog. Neste post quero falar por alto sobre esses quase 15 meses que estamos morando aqui no país do John Knox, do Kilt, da gaita de foles e do whisky.

Eu olhava para a Escócia e imaginava um prédio em chamas. Um país sem fé, mergulhado no materialismo, no pós-modernismo, no liberalismo e em tantos outros “ismos” que você possa imaginar. Depois desse período morando aqui e tendo convivido com pessoas, igrejas, presbitérios e entidades cristãs, minha visão mudou bastante. O prédio continua em chamas, é verdade, mas o esforço que se faz para combater o fogo e tentar recuperar o edifício tem sido grande e louvável. Esse esforço, quase que missionário da parte de poucos (na verdade minoria), levou-me a refletir muito sobre a questão da missão da igreja, principalmente hoje, no século XXI.

Observando o trabalho deste grupo de pessoas que se esforçam pela pregação bíblica neste país, analiso meu ministério anterior no Brasil e penso que existe aqui um exemplo. Na minha visão, um exemplo de missão: pastores, presbíteros e líderes em geral aproveitando oportunidades e elaborando estratégias para buscar o pecador.

Pretendo falar mais sobre isso nos próximos posts, ou seja, o que se tem feito para apagar o incêndio e recuperar a dignidade e glória da Igreja de Cristo. Em resumo diria que vivendo e trabalhando na Escócia entre 2007 e 2008, minha visão ministerial mudou consideravelmente, não quanto às questões teológicas, confessionais, doutrinárias e eclesiásticas, mas sim quanto à missão da Igreja na prática. E nesse ponto creio que há muita coisa para a igreja brasileira considerar, aprender e também estar em alerta.

Com isso espero contribuir um pouco que seja para a igreja brasileira e, para a glória de Deus, ser usado aqui onde Deus me chamou.

Logo do Projeto Chocolate Quente em Dundee

Logo do Projeto Chocolate Quente em Dundee

O pai de Keith, um adolescente escocês, descobriu que tinha uma doença muito grave. Agora o jovem pensa seriamente em falar com o pai, com quem não falava há muito tempo. Jade, uma outra adolescente, foi abandonada pela mãe e deixada com sua irmã mais nova. De repente ela teve que encarar um outro nível de responsabilidade na vida.

 

 

O que esses adolescentes têm em comum? Um lugar que eles normalmente bebem chocolate quente.

 

A Steeple Church, uma Igreja Presbiteriana na Escócia, localizada no centro da cidade de Dundee, iniciou em 2001 um projeto chamado Hot Chocolate (Chocolate Quente) com o objetivo de fazer um cantato com jovens problemáticos que ficavam nas praças ao redor da igreja durante o dia e a noite, envolvidos com violência, vandalismo, drogas e prostituição. Em algumas ocasiões a igreja precisava chamar a polícia por causa da confusão que faziam nas portas do templo.

 

A igreja tentou então trabalhar com esse grupo de pessoas na tentativa de transformá-los tanto socialmente como espiritualmente, ao invés de ignorá-los. Para começar, a igreja contratou Alison Urie como coordenadora de desenvolvimento do projeto. Assim que abriram as portas, muitos jovens não sabiam o que era e ficavam desconfiados quando eram convidados a entrar nas salas da Igreja. Mas o tempo foi passando e começaram a freqüentar o Chocolate Quente. Alguns anos depois a igreja viu a necessidade de obter mais recursos para desenvolver o projeto. Para que isso fosse possível, o Chocolate Quente se tornou uma organização separada da Igreja, mas tendo em seu quadro um grupo de líderes comprometidos com Cristo.

 

A idéia central do ministério do Chocolate Quente é construir relacionamentos com os adolescentes de fora da igreja, cuja maioria apresenta problemas em casa como rejeição, vícios e violência. Não é somente uma relação de amizade mas é também um contato que permite que cristãos maduros e com visão missionária sirvam como apoio em momentos difíceis da vida dos jovens, oferecendo conselho e acompanhamento. Evangelização em última instância. Para que esse relacionamento possa nascer, crescer e frutificar, o grupo do Chocolate Quente oferece muitas atividades. Nas dependências da igreja eles encontram uma sala de música, uma sala com sofás e uma quadra de esportes. Abrem a igreja toda terça e quarta à noite e aos sábados à tarde. Também servem o famoso chocolate quente.

 

Durante três semanas no verão o Chocolate Quente monta um projeto especial. Abrem a igreja de terça a sábado, o dia todo! Com muitas atividades diferentes dentro e fora do prédio da Igreja o que visa re-afirmar os relacionamentos entre os adolescentes e o pessoal do projeto.

 

A resposta a esse trabalho tem sido surpreendente. Hoje, muitos jovens aparecem de diversos pontos da cidade para estarem no Chocolate Quente. Muitos jovens se conscientizaram e consertaram suas vidas, decidindo estudar, voltar ao mercado de trabalho, deixar vícios e dedicar à obra de Deus.

 

O Chocolate Quente também ajuda a cidade de Dundee, de 140 mil habitantes, a quarta maior cidade da Escócia. Oferecendo um lugar de estabilidade, a Igreja dá um grande testemunho. Por causa disso, muitos planos tem sido feitos para tornar este ministério ainda maior.

 

As autoridades governamentais da cidade também estão envolvidas com o Chocolate Quente. Ao mesmo tempo em que o projeto procura ajudar nessa questão social muito séria, os governantes oferecem apoio, orientação e ajuda das mais diferenciadas formas.

 

Assim, a igreja que antes expulsava bagunceiros da porta, hoje as abre para jovens como Keith e Jade, para que sejam ajudados e também encontrarem novas pessoas em um espaço saudável. Ajudá-los é mais do que trabalho social, é trazê-los a uma nova vida e uma nova vida com Cristo. Ainda que muitos não se entreguem ao Senhor de imediato, saem do poço ou da beirada dele e voltam a viver com dignidade. Espera-se que no futuro se lembrem da importância da igreja na mudança de vida que tiveram e lembrem-se também de que Cristo tem tudo a ver com isso.

No Brasil, problemas assim são ainda mais comuns. Está aí uma idéia para a igreja fazer missões e servir no local em que está inserida. Em cada cidade brasileira existe uma porta aberta para o testemunho e ação evangelística.

A mensagem de Jesus em Mateus 28.16 a 20 serve para a igreja de hoje também. Ele envia seus representantes para o mundo todo, para dar às pessoas a oportunidade de ter um relacionamento com Deus, para aprender mais sobre ele e alegrar-se com sua poderosa presença em suas vidas. Em outras palavras, a missão é oferecer livremente a salvação e com ela proporcionar um sentido na vida, um sentimento de pertencer que muitos hoje desejam ter, mas poucos conseguem encontrar.

            No ano passado preparei um artigo para a Igreja da Escócia como parte do meu processo de efetivação como pastor desta igreja. Descobri que essa denominação está perdendo seus membros e deixando de receber novos a cada ano. E o futuro, como será? Sei que não existe resposta fácil, mas as estatísticas estão levando alguns ao desespero.

            Eu não sei como anda a Igreja Presbiteriana do Brasil nesse aspecto, mas na minha opinião o importante é saber como a igreja reage às palavras de Jesus em Mateus 28.

            Acredito que quando o povo de Deus se mobiliza e dá prioridade ao Reino de Deus, coisas boas acontecem. Quando os crentes levam a sério o que está escrito em Mateus 28, por exemplo, Deus abençoa a igreja e certamente os frutos virão.

            No filme “The Shawshank Redemption” um homem idoso chamado Brooks Hatlan foi solto da cadeia depois de cumprir sua pena. A prisão foi sua casa durante grande parte da sua vida. Depois de solto, percebeu que estava fora do seu mundo e a partir daí o que mais queria era voltar para a prisão, onde, apesar de não ter liberdade, pertencia a um grupo de amigos em um ambiente familiar a ele. Sua angústia do lado de fora foi tanta que ele escreveu uma carta para seus amigos na prisão dizendo, “meu mundo acabou e se transformou numa verdadeira loucura”.

            No final da história, Brooks preferia se matar do que viver como um estranho no mundo de fora. Para ele, a prisão era o seu lar e referência. Um de seus companheiros de cela disse que Brooks era um homem importante, uma pessoa estudada. Era o bibliotecário da detenção. Fora da cadeia ele não era nada. A repentina separação de seu ambiente e de seus amigos levou-o a questionar sua própria identidade. Depois de tanta angústia, por fim, resolveu suicidar-se.

            Lamento contar o fim do filme, mas é um exemplo de milhões de pessoas que hoje se sentem como Brooks Hatlan. Vivemos num mundo de alta velocidade, cheio de tecnologia e não há tempo para nada, de dia ou de noite. Com todo esse avanço que permite estar em contato imediato com qualquer pessoa no mundo, as pessoas estão cada vez mais isoladas. Muitos estão sem referência e não sabem a quem pertencem. É triste notar que, segundo as estatísticas, jovens entre 15 e 24 anos de idade são os que mais cometem suicídio no Reino Unido e Europa de maneira geral.  Será que a Igreja tem algo a oferecer? “SIM” é o que todas diriam. Por alguma razão, entretanto, essa faixa de idade é a que menos se encontra na maioria das igrejas aqui e elas estão em declínio. Essa é a situação da igreja no Brasil? Creio que não, mas serve de alerta.

            Jesus mandou fazer discípulos. Mandou que eles fossem batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo – A Trindade, relacionamento. As três Pessoas distintas e divinas relacionam-se entre si. Se Deus é, então, comunidade, e sendo nós sua imagem, nossa identidade humana não existirá se vivermos isolados em relação a outras pessoas e também a Deus: família, igreja, amigos e comunidade. Solidão, portanto, não estava nos planos de Deus quando nos criou. Existe em nós a necessidade de comunicação, amor e interdependência.

            Se pessoas são imagem e semelhança do Deus triúno e carregam em si o anseio de pertencerem-se e relacionarem-se, por que elas não estão na Igreja? Igrejas na Escócia estão passando pelo que eles chamam de amalgamento – isso nada mais é do que igrejas que vão esvaziando e ficam tão pequenas e sem recursos que são obrigadas a venderem o prédio; seus pouquíssimos membros restantes são transferidos para a Igreja mais próxima. Alguma coisa deve estar errada mesmo. Os campos estão brancos para a colheita, mas parece que alguns cristãos estão trancados dentro de quatro paredes.

            Os discípulos devem fazer mais discípulos. Entretanto, a palavra ethnos, que normalmente se traduz como “nação”, seria melhor traduzida como “grupo étnico” ou mesmo “tribo”. Em outras palavras, isso define pessoas por sua língua, costumes, crenças, valores morais e cultura, e não a sua localização geográfica ou país de origem. Hoje a tarefa continua a mesma: começar por onde as pessoas estão; engajar-se nas comunidades; abranger a todos. Em resumo, falar o seu idioma.

            Isso tudo me leva a pensar que Mateus 28 é mesmo um desafio para a Igreja. Aqui na Escócia dizem que as pessoas querem se aproximar de Deus, mas não da Igreja. Reclamam que a igreja está muito presa ao passado; não vêem relevância nela. O nosso desafio não é tornar a Igreja mais ou menos relevante, mas falar, da Palavra de Deus, as verdades eternas que Deus tem para todo ser humano. Muitos líderes cristãos comprometidos com a Palavra têm se levantado e portas têm sido abertas nas Universidades, Cafés, Livrarias e até em Pubs aqui na Escócia. Muitas igrejas não estão acompanhando a estatística tão pessimista e vão além das suas próprias paredes, pregando a Palavra de Deus.

            Minha pergunta é: no Brasil, estamos vivendo no conforto dos números ou dispostos a obedecer ao Mestre? O que é mais importante?

Oremos pela Igreja de Cristo neste mundo. Oremos pelo crescimento do Reino de Deus e pela transformação de pessoas. Não somente na Escócia e Europa, mas pelo Brasil também.

“Andai enquanto tendes a luz…” (João 12.35)

Quando estava para deixar o Brasil rumo à Escócia, eu me imaginava no novo país, como que numa trincheira, em plena guerra contra os chamados liberais, lançando no campo deles granadas e dando tiros e, dessa forma, considerando que eu sou o lado do bem, um dia haveria de prevalecer e reconquistar a Escócia para a verdadeira Reforma. Pensava eu que meu campo de batalha seria tanto no mundo dos debates teológicos como no dos concílios: argumentando e contra-argumentando, fazendo alianças, organizando reuniões secretas e me colocando como guardião e fiscal da fé reformada e pronto para denunciar a todos, quem quer que fossem.

Ao chegar na Escócia percebi que a guerra não é tão declarada assim – costumava ser no passado, o que causou muito escândalo, divisão e desânimo. Fui recebido no Presbitério de Dundee com muita honra e consideração; como membro correspondente, ou seja, tendo minha ordenação e ministério de 15 anos reconhecidos por este concílio. Verifiquei que a Igreja da Escócia, como denominação, mantém-se fiel em seus documentos à Confissão de Fé de Westminster e à Bíblia como única regra de fé e prática. Na prática, esses símbolos de fé não são integralmente seguidos pela maioria, mas eles estão lá, por enquanto, culpando de certa forma aqueles que não os subscrevem. Temos aí então um motivo e força legal para declarar guerra aos ímpios de dentro da igreja. Mas quem são eles? Onde eles estão? Será que existe apenas uma forma de combatê-los, ou seja, movendo tribunais, batendo boca ou formando grupelhos reacionários?

No Brasil, eu entendia os liberais como sendo aqueles que professam a fé cristã de maneira diferente de nós evangélicos, reformados, conservadores e ortodoxos. Parecia ser fácil para mim separar ovelhas de bodes, joio de trigo (que a propósito nunca fora minha função). Ao chegar na Igreja da Escócia percebi que as coisas não são tão “preto-no-branco” como eu imaginava. Existe uma guerra? sim. O liberalismo é um mal para a Igreja? Sim, definitivamente, pois se o texto bíblico tem autoridade igual a qualquer outro texto, a igreja que assim aprende fica destinada ao raquitismo espiritual. Como saber a vontade de Deus se a própria Palavra revelada por ele é negligenciada? O problema é que o inimigo é sutil e muito bem camuflado. Sua postura amiga, ética e tolerante para com linhas teológicas diferentes e até divergente são claras como cristal. Até mesmo os que, como eu, defendem a autoridade absoluta das Escrituras, os aqui chamados “evangélicos”, da mesma forma acabam tendo que ser sutis. Uma das razões para serem assim é porque no passado, os chamados reformados, calvinistas, ortodoxos e evangélicos perderam terreno e força para influenciar a igreja. Eles apresentavam uma conduta e comportamento um tanto intolerante, debatedor, politiqueiro e ao mesmo tempo sem muita ética; hoje os que querem ver a igreja espiritualmente sadia e de fato reformada não querem ser comparados com o velho evangelicalismo de direita (como eles chamam aqui), pois associação com eles enfraquece qualquer ação.

Vejo agora na Escócia uma batalha muito mais difícil e menos óbvia. Difícil saber quem é quem e, mesmo sabendo, a lida com eles há que ser diferenciada. Por exemplo, há igrejas que, a despeito de parecer de cor liberal, promovem trabalhos que envolvem tanto distribuição de Bíblias como o ensino da mesma; Escolas Dominicais de linha aparentemente não muito ortodoxa adotam material da Scripture Union, entidade reconhecidamente cristã e de fé bíblica e ortodoxa; conheci pastores e cadidatos a pastores que apresentam certas deficiências teológicas, fruto da formação acadêmica que tiveram, essa sim, totalmente liberal, mas que no geral apresentam fé evangélica quando oram, pregam e quando cuidam, com dedicação, do rebanho. Como peneirar isso? Como lidar com isso? Creio que somente com a sabedoria que vem de Deus.

As vezes páro e questiono se a postura de tentar purificar a igreja com documentos, denúncias, partidos e facção constrói de fato uma igreja saudável aos olhos do Senhor. O combate aqui é feito de forma um tanto diferente pelos não-liberais. O campo de batalha é na igreja, no púlpito, na visita pastoral, no andar junto, no relacionamento entre pastor e ovelha, no envolvimento com missões, evangelização e na área social (por que não?). E eu acredito nisso, no trabalho da igreja local. No pregar a Palavra, na assistência pastoral e na ação. Quando se ouve dizer no Brasil que a Igreja na Escócia está acabando, fechando e em franco declínio, é bom que se saiba que as igrejas daqui que são fiéis à Palavra de Deus não fazem parte deste quadro. O que as igrejas precisam, aqui e no Brasil, são de líderes que de fato atendam e apascentam o rebanho dentro da autoridade da Palavra e submissos a ela. Os que agem diferente, independente em que exército servem ou em que país estejam, Deus mesmo é quem lhes manda o seu juízo.

Fico pensando como a igreja no Brasil é privilegiada. Sempre com jovens, pessoas de todas as idades e membros que amam a Palavra e têm sede por ela. Hoje entendo que a solução é a mesma também para o Brasil. Igreja local trabalhando, ministros pastoreando seu rebanho com dedicação e empenho.

Quem são os inimigos? Não sei exatamente, mas o que cabe a mim é ter cuidado de mim mesmo e da doutrina. O Senhor faz o resto.

“A sabedoria , porém, lá do alto é, primeiramente pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial sem fingimentos. Ora, é em paz que se semeia o fruto da justiça, para os que promovem a paz”. (Tiago 3.17-18)

Rui Barbosa

August 12, 2008

Super Sam
Super Sam

Ele era baixinho e tinha um cabeção! Pelo menos essa é a idéia que eu tenho do Rui. Uma vez fiquei impressionado quando me disseram que ele dava aulas de Inglês para britânicos em Londres. O baixinho era atrevido, mas capacitado.

Outra pessoa que não é tão baixinha mas muito capacitada é o Samuel. Deus deu a mim e a Lia esse presente maravilhoso. Foi um só, mas traz alegria de 10 filhos (e despesa de um, by the way!!!!).
Recentemente ele aumentou ainda mais nossa alegria, primeiro dizendo que vai ser missionário e depois que foi aprovado na escola de uma forma brilhante. Muitos Escoceses não tiveram o mesmo desempenho que ele em matérias como Língua Inglesa, por exemplo. E o Samuel está na Escócia há somente 15 meses. Dizem que 50% dos nativos daqui não passam no exame da própria língua. Agora o Sam tem condições de entrar em qualquer Universidade do Reino Unido, mas o que ele quer é ser missionário. Essas bênçãos só confirmam o nosso chamado de Deus para serví-lo nessa terra gelada.
Acredito que não foi fácil para um jovem como Samuel deixar seu país, sua cultura, seus amigos, igreja e escola para um salto de fé para o outro lado do Atlântico. Assim que chegou, teve que submeter-se a um estilo de vida totalmente diferente e viu-se cercado de grandes barreiras. Estou certo de que o mesmo Deus que nos chamou, capacitou o Samuel e deu-lhe esse ânimo de vencer os obstáculos.
O texto bíblico que me vem à mente agora é o de Filipenses 2.5-8.
O Samuel não é o Rui Barbosa! Ele é o Samuel, servo de Deus, aquele a quem Deus chamou pelo nome. Que ele contine assim e que o Senhor abençoe esta terra por intermédio do Sam.

Abrir um blog parece ser mesmo coisa que só adolescente faz, pelo menos é o que parece. Mas o que parece nem sempre é o que acontece. Tenho visto muita gente grande escrevendo suas idéias e publicando tudo eletronicamente. Se blog é coisa de adolescente ou não, ou se os adultos e velhos estão aderindo ou não, não tem problema, resolvi escrever também. Decidi reunir meus pensamentos, não que eles sejam especiais, diferentes ou melhores, mas é que eu quero deixar minha visão sobre coisas que tenho visto e ouvido (e também falado) aqui na Escócia. Sugestão de amigos. Acredito que pode ser útil para alguém, afinal, a realidade e as experiências que eu passei são bem diferentes das de muitas pessoas lá no Brasil. Sendo assim, acho que posso ajudar. Vamos ver no que dá. Espero que haja comentários e que todos vejam nesse blog a seriedade de um pastor que sonha realizar o trabalho de Deus, mas ao mesmo tempo não vejam nada tão pesado, mas uma coisa adolescente, tranquila, informal, relevante para o nosso tempo e nossa igreja. Depois nos falamos.